Após dias tumultuados, festivos e cheios de grandes emoções. Mais uma quinta-feira que parecia beirar a normalidade. Cheguei à escola meia hora antes do horário de entrada dos alunos. Acompanhei a oração inicial e a entrada dos mesmos em sala de aula. Maurício de longe me viu e esboçou uma risadinha, apesar do ar meio esbaforido:
– Hoje o 4º ano vai fazer uma apresentação no SESI Caminho de Areia!
– Legal! – respondi.
– Ás 14h30min chega o ônibus que vai nos levar, vamos apresentar a música bolacha de água e sal do Palavra Cantada, conhece?
– Que massa Maurício! Não conheço, não.
– É legal, você vai ouvir. Metade da turma faz um jogo com copos e mãos e a outra canta a música, tem um momento contrastante onde todos estalam os dedos e depois volta pro groove.
– BAAAALAA!
– Então, ainda tenho que resolver isso do ônibus procurar o motorista e coisa e tal. Você pode dar aula no 1º ano hoje?
– CLAAAAR...Hã?! Sozinha? Eu e eles?
– É, é bem simples, vamos continuar aquele jogo de “Fino/ Agudo, Grosso/Grave, Curto e Longo”. Leva o teclado e o amplificador para a sala, divide a turma em duplas e pede para virem ao quadro. Escreve num papel o som que eles devem fazer (curto, longo, agudo, grave), enquanto um lê o papel e toca o outro desenha o gráfico do som que o primeiro fez. OK?
– Claro, vamos nessa!
Quando estamos planejando uma atividade para sala, tudo parece fácil e fluido, no entanto, no momento da execução é que vemos as brechas, os pontos positivos e negativos, o que funciona e não funciona e, principalmente, que educador é você e que tipo gostaria de ser.
Maurício solicitou a uma professora permanecer em sala de aula para organizar a turma. Passados dez minutos do começo da aula, Romildo (Maurício, o nome dele é Romildo ou Romilson?!) adentra a sala. Romildo/son é aluno de Licenciatura da Católica, veio observar a classe.
Resolvi só trabalhar o som curto e longo com os alunos, escrevi em quatro papéis quatro sons diferentes. A dupla chegava ao quadro e sorteava um papel para realizar. De todos os alunos em sala apenas um realmente sabia ler, ajudei-os a lerem os cartões, o que demandava mais tempo e mais atenção. As primeiras três duplas realizaram a atividade sem grandes problemas. Toda minha “performance” era bem teatral, para tornar a aula mais engraçada e prender a atenção deles, difícil mesmo era fazer com que todos me ouvissem, silêncio é um artigo em extinção. A quarta dupla (de um total de quinze) tropeçou no fio do teclado, consegui salvá-lo da queda, mas a morte foi inevitável, do teclado é claro. Resolvi continuar a atividade utilizando a voz. Alguns ficaram confusos então solicitei toda sala para que primeiro realizássemos sons curtos. Vários “pi, pá, pu, tchan, úú” surgiram de todos os cantos, depois sons longos, resultado: Aproximadamente dois minutos de gritos ininterruptos.
A essa altura já sentia desconforto ao falar. É muito desgastante falar gritando o tempo todo e, se essa experiência evidenciou algo foi: Gritos não fazem e não poderão fazer parte da minha prática pedagógica. Mesmo que falem que ao longo dos anos ganharei prática na famosa “impostação vocal”. Não tenho estrutura e nem vontade de utilizar esse artifício em sala de aula. Admiro muito professores-com-voz-de-trovão, mas não é para mim! Com certeza é mais difícil (e quem disse que EDUCAR é fácil?!) e leva mais tempo, mas o desgaste físico/mental/psicológico é bem menor! Voltando ao relato, pedi um som longo à classe do 1º ano, gritaria-sem-fim que só cessou quando a outra professora apagou as luzes. Todos AUTOMATICAMENTE abaixaram as cabeças e calaram-se (Salve, Behaviorismo!), neste momento percebi que só havia uma professora em sala e, infelizmente, não era eu. Continuamos o jogo, poucos conseguiam ouvir a voz do colega que realizava a atividade e, com o passar do tempo, nem toda a “encenação” conseguia mantê-los conectados a brincadeira.
Os poucos que estavam atentos DECORARAM os papéis, fiquei feliz porque pude observar o quanto são espertos e ligeiros quando querem, mas o jogo realmente perdeu a graça. Corri para secretaria/sala do professores e peguei o violão: “A, agora eu faço o som e vocês desenham no quadro!”. Dei outro piloto para dupla e continuamos a atividade até o fim. Percebi que muitos ainda não entendiam o porquê do som ser curto ou longo. Enquanto pensava em como finalizar a aula perguntei-lhes: “Por que chamamos um som de curto?”. Várias respostas: “porque é pequeno, porque é rápido...” um disse: “Porque é agudo!”, mas imediatamente foi corrigido por um colega, que respondeu: “pode ser grosso e curto”.
Aproveitei a deixa: “vamos todos fazer um som grave e curto?!” Vários “tos, pós, pum”. Ainda matutava um fim-de-aula interessante e coeso, mas nada vinha a mente (Aiaiai Plano de Aula, que falta você faz!). Perguntei “E por que chamamos um som de longo?”, outras tantas respostas: “porque é grande, por que demora...”. Eu: “então vou contar até três e vamos todos fazer um som longo para finalizar a aula: 1,2 e 3...”. “CALA A BOCA DE UMA VEZ”, respondeu uma parte da turma, enquanto a outra parte simplesmente me ignorava. Insisti na brincadeira: “Vamos lá pessoal! Vocês sabem o que é um som longo, é só fazer!” Bom, não posso dizer que o resultado não foi satisfatório, mas, para o que parecia uma tarde beirando a normalidade, quase me deixa louca (ou ao menos um pouco mais surda).
Gritaram, gritaram, gritaram e eu que já não tinha forças, nada fiz. Esperei a professora apagar as luzes novamente, arrumei as coisas em cima da mesa e levei para a sala dos professores, ainda gritavam quando saí da sala carregado o violão e o amplificador. Quando voltei à sala para buscar o teclado todos estavam quietos de cabeças baixas, Insight! Comecei a cantar DA MARÉ bem baixinho, aos poucos foram me acompanhando, começaram a aumentar o tom de voz, “regi” a turma para que continuassem cantando baixinho. Botei o teclado embaixo do braço e disse: “Muito bonito, crianças! Até semana que vem”. Eles quase em coro: “Tchaaaau Próóó!!”, a ultima voz que ouvi foi a da outra professora que comentava com o Romilson/do : “Coitada da professora!”. Esse “coitada” doeu mais do que toda indiferença dos alunos desatentos.
Tomei um copo d’água, respirei fundo e fiquei esperando Maurício na sala dos professores. Ele já chegou perguntando “E aí?! Como foi?!”. “É, foi! Mas primeiro tenho que digerir a experiência para depois te passar os detalhes” – respondi.
No pátio, já havia uma fila de alunos formada, sorrisos estampados e pouco nervosismo aparente, de imediato quase todos me reconheceram como a DJ da festa. Alguns se esqueceram do bilhete de permissão dos pais, e pediam encarecidamente para que Maurício e a Vice-Diretora lhes permitissem o passeio. Uma das alunas correu até sua casa (que era próxima a escola) debaixo de chuva, só para pegar a autorização.
Dentro do ônibus a turma se dividiu em duas: a galera do fundão, que cantava e brincava bastante e o pessoal da frente, que parecia mais tímido e ansioso. Maurício ficou ao lado do motorista mostrando o caminho e eu fui atrás com a galera. Tirando um ou outro pedido de “Por favor: mãos, pés, cabeça, joelho, cotovelo e nariz DENTRO DO ÔNIBUS”, não me deram trabalho algum! Uma turma madura e disciplinada, no limite onde toda criança o pode ser. Chegamos ao SESI no horário combinado, bem a tempo de ver o começo das apresentações, os alunos acomodaram-se na platéia e lá ficaram muito bem comportados.
Uma das alunas me disse que não poderia ficar no auditório, pois passava muito mal com o ar condicionado. “OK, então a gente fica sentadinha aqui até a hora da apresentação de vocês”. Outra aluna agarrou meu braço e disse que estava sem autorização dos pais, então iria ficar perto de mim. Ficamos as três conversando na ante-sala do auditório. Foi divertidíssimo! Parecia um programa de entrevista: quando não estavam respondendo, estavam curiosíssimas perguntando. De longe parecem crianças, mas me surpreenderam com a maturidade de suas palavras.
Quando perguntei sobre as diferenças entre escola pública e escola particular elas foram veementes: “A escola particular é um saco, um monte de metidinho que se acha e que diz que sabe de tudo, mas não sabe nada. Os pais pagam caro e pensam que dinheiro compra conhecimento, mais burros ainda, por que não sabem que depende é do aluno, o aluno é que aprende, se quiser aprender alguma coisa, é claro. Na escola particular eles aprendem é a esnobar com o tênis caro, tirar onda com o celular novo, só isso... nada que preste”. Não preciso nem dizer que o relato sobre a escola pública e, mais precisamente a Santa Bárbara foi tão enfático quanto, mas inversamente proporcional. Elas ADORAM a escola, os amigos, os professores, a merenda, sentem mesmo como se fosse uma extensão das suas casas, uma segunda família. Perguntei-lhes o que elas gostariam ser quando crescer, prontamente a primeira disse: “promotora de justiça” e a segunda, “Artista! Quero desenhar, fazer quadros, esculturas”. Fiquei feliz e surpresa com as respostas e disse-lhes:
– Meninas vocês tem o poder de ser tudo que quiserem, mas terão que estudar muito e trabalhar duro.
– É, tô ligada!
Chegada a hora da apresentação, alguns aparentavam muito nervosismo. Posicionaram-se e aguardaram concentrados a regência de Maurício. Foi lindo! A galera dos copos não errou uma, mesmo desfalcados – a mocinha que passava mal com o ar condicionado não aguentou ficar no auditório. Inicialmente começaram a cantar tímidos, os ombros para dentro e a cabeça levemente baixa. Depois da parte contrastante, onde a dinâmica diminui, voltaram com todo gás. Realmente uma apresentação muito bonita.
Na platéia aplaudiam bem felizes as “chefonas” (com o perdão da palavra, é claro. Não me recordo agora nem os nomes nem os cargos, mas Maurício pode comentar isso depois, né?) Também marcava presença o pessoal da comunidade, que não se preocupava muito em regras de convívio social, como fazer silêncio ou mesmo, não jogar bolinhas de papel. Na saída, lanchinho para todos! Voltamos para o ônibus, todos alunos, mais uma vez, muito comportados. Já no ônibus, não havia dois grupos, todos estavam no fundo cantando e batucando, felizes com a apresentação (Salve, Adrenalina!). Chegada tranqüila, na escola o transporte escolar de uma das alunas já havia passado, provavelmente ela se esqueceu de avisar-lhes da apresentação. Mauricio a levou em casa e a mim também. Durante o trajeto:
– E aí?! O quê que você achou? Como foi a aula? E o 4º ano?!
– Calma Maurício! Vou digerir e prometo que escrevo TUDO.